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Goa: A Língua como união intercultural
2009-11-09 15:52:01



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Goa - Communicare é uma organização não-governamental que nasceu há quatro anos em Goa com o objectivo de incentivar «a promoção de um mútuo entendimento entre Goa e todas as regiões do mundo». Entrevista com Nalini Elvino de Sousa presidente da Communicare.
Nalini Elvino de Sousa nasceu em Portugal mas os pais são naturais de Goa. Emigraram novos para Lisboa, onde estudaram e casaram. Nalini desde sempre passou férias em Goa, até que, um dia, decidiu morar onde as suas raízes nasceram, em Goa casou e é onde vive há onze anos. Durante o seu percurso, sempre, procurou promover a língua e cultura portuguesa. Inicialmente, como professora de português e agora como presidente da Communicare.

Quando é que nasceu a Communicare?

A Communicare é uma organização não-governamental que nasceu em 2005 com 4 elementos. Durante o corrente ano, um dos membros faleceu e dois novos elementos entraram para a direcção. Portanto, actualmente é constituída por cinco pessoas.

Qual é o conceito da Communicare?

Communicare é uma palavra que vem do latim e que significa o acto de saber, tornar comum, participar, estabelecer ligação, unir... portanto, o nosso objectivo é a promoção de um mútuo entendimento entre Goa e todas as regiões do mundo, através de um diálogo intercultural, que visa o desenvolvimento educacional ao nível
Linguístico e cultural. Como tal, o nosso objectivo é ensinar o maior número possível de línguas debaixo de um mesmo tecto.

Quantos cursos estão em funcionamento neste momento?

Actualmente, estão a decorrer os cursos de hindi, marathi, concani, português, espanhol e russo, mas pretendemos atingir 28 línguas até 20 de Outubro de 2010. São cursos com quatro meses de duração.

Qual é o número de alunos por curso?

Normalmente, entre 12 a 15 alunos por turma. Acreditamos que não se deve exceder este número porque o professor deve poder satisfazer as necessidades de cada aluno. Somente o curso de russo excedeu este limite porque a procura foi muito grande, tivemos cerca de 40 alunos. Este facto deve-se a Goa ter-se tornado, nos últimos anos, um destino turístico de eleição por parte dos russos. Como tal, várias empresas goesas sentem a necessidade de aprender a língua.

Para além dos cursos?

Temos explicações de português entre o 8º e o 12º ano porque os alunos têm muitas dificuldades na aprendizagem. O ensino da Língua Portuguesa ao nível do ensino secundário depara-se com certas dificuldades, principalmente, no que diz respeito à indisponibilidade de professores qualificados. O grosso dos docentes são professores reformados com idades compreendidas entre os 60 e os 80 anos, cujos métodos de ensino estão desactualizados, a sua formação pertence à época do domínio português, no entanto, procuram ensinar da melhor forma possível.

Qual é a actual situação do ensino do português?

Quando eu cheguei a Goa há onze anos atrás, havia muito poucos alunos a escolherem português, como língua de opção. Em 2000, comecei a leccionar português no ensino secundário e a minha primeira turma do 12º ano tinha apenas 4 alunos. Actualmente, a situação melhorou, há cerca de 15 alunos por turma. No entanto, são poucas as escolas que têm português como língua de opção, no máximo devem existir cerca de 20 escolas em Goa, assim como, o número de alunos não deve ultrapassar os 900.
Se compararmos com o francês, verificamos que existe um número mais elevado de alunos a escolher a língua francesa como opção. Este facto deve-se ao apoio incondicional da Embaixada Francesa aos professores goeses que ensinam francês. Assim como, existem instituições, nomeadamente a Alliance Française que promove cursos para adultos e crianças, organiza exposições de pintura, workshops, mostras cinematográficas de filmes e documentários franceses e palestras sobre literatura francesa. Este tipo de acções são uma óptima aposta para promover uma língua estrangeira. Ao contrário do Governo Português que não tem apostado desta forma.

O que pode ser feito para melhorar?

O principal problema prende-se com a falta de professores qualificados. Portanto, uma das soluções seria o envio de docentes portugueses por o período de um ano, com intuito de darem formação aos professores goeses. Isto não quer dizer que não haja jovens a falar português, somente não optam pela via de ensino porque o salário não é atraente.

O estado goês não apoia?

O Governo apenas financia o ensino de uma língua, caso se inscrevam pelo menos 20 alunos no primeiro ano em que esta é oferecida ou 15 nos anos subsequentes. Além disso, o professor tem que acumular pelo menos duas disciplinas e assegurar uma carga horária mínima de 30 horas semanais. Portanto, o professor, normalmente, não pertence ao quadro da escola e as aulas são pagas por fora, ou seja, pelos alunos ou por uma instituição que se disponha a fazê-lo. Como resultado, o ensino do português é oferecido como língua de opção em cerca de 20 escolas, das quais a sua maioria, são financiadas pela Fundação Oriente, ou seja, a Fundação paga ao professor à hora, uma vez que, esse estabelecimento de ensino não satisfaz os requisitos do Governo.

Portanto, para além das escolas estatais o estado não apoia outras instituições? Porque razão?

A Invasão/Libertação de Goa ainda é recente, tem cerca de 50 anos. Se analisarmos em termos históricos, dois quartos de século não é assim tanto tempo. Ainda existe um elevado número de pessoas que viveu nessa altura, portanto, é algo que ainda está muito vivo na cabeça das pessoas. Além disso, Goa perdeu uma fatia muito grande da sua população culta de expressão portuguesa que emigrou para Portugal e outros destinos após a sua integração na Índia, daí que esta percentagem lhe chame Invasão. A maior fatia são os pró-indianos, os que são a favor da Libertação de Goa. Este grupo de hindus, digamos que fundamentalista, manifesta-se, ainda, hoje em dia, contra qualquer acção a favor de Portugal. Quando o Instituto Camões celebrou o 25 de Abril, fizeram uma manifestação à porta.
A maioria das pessoas que falam português são católicas e a percentagem de católicos é irrisória quando comparada com a percentagem de hindus - 20 para 70 por cento.
Portanto, é muito difícil apoiar uma causa que não tem muitos adeptos.

E no que diz respeito às várias instituições que promovem a língua portuguesa. Há algum tipo de sinergias?

Futuramente vão existir, estamos a trabalhar num projecto que visa a elaboração de manuais escolares para o 5/o, 6/o e 7/o anos e pretende ser feito em conjunto com todas as instituições que promovem a Língua e Cultura Portuguesa.

E Portugal? Apoia as instituições sediadas em Goa?

O Instituto Camões que é uma instituição que está sob tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros tem apoiado e promovido a Língua Portuguesa, nomeadamente através da Universidade e Cursos Livres de Português, assim como tem realizado várias actividades. E o Consulado Português que tem feito algum esforço para tentar promover a Língua Portuguesa. No ano passado, realizou a primeira edição da Semana da Cultura Portuguesa., onde juntou todas as instituições que promovem a Língua Portuguesa e cada uma participou com diferentes actividades. A Communicare realizou uma competição de «scrabble» em português. Houve mostra de cinema português, exposições, workshop de como pintar azulejo, entre outros. Penso que um evento como este deverá ter novas edições.

Porque é que as pessoas aprendem português. Ainda existe alguma ligação ao passado?

Sim, normalmente, são pessoas que têm um legado familiar ligado ao português, ou porque os avós falam ou têm família em Portugal. Outros sentem algum saudosismo ou querem aprender uma língua que faz parte da sua história. Há quem aprenda por motivos de negócios ou até mesmo porque quer aprender uma língua nova e porque não o português?

Para além, das instituições que promovem a língua portuguesa, existe outro tipo de divulgação?

O hotel Cidade de Goa realiza mensalmente, uma noite dedicada ao fado e à gastronomia portuguesa e das ex. colónias, ou seja, para além de pratos tradicionais portugueses, também oferecem pratos tradicionais de Moçambique, Angola, Brasil, entre outros.

Voltando à Communicare, quais são os projectos futuros?

Actualmente, estamos a trabalhar num projecto desenvolvido pelo CESA (Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento) e a Universidade de Aveiro, que se chama Memória Oriente, que tem como objectivo principal a criação de uma biblioteca virtual que reúna obras raras ou não que tenham uma ligação com Goa, Índia e Portugal. A intenção é permitir aos investigadores das mais variadas áreas acederem a acervos documentais com obras importantes, que se assim não fosse, nunca seriam encontradas, porque muitas destas monografias encontram-se em casas coloniais particulares, que pertenceram à Goa portuguesa.
Uma equipa do CESA veio dar formação de catalogação de livros a elementos da Communicare, assim como da Central Libray (Biblioteca Central). A Biblioteca Central tem entre 60 a 80 000 livros e a Communicare vai se dedicar a catalogar todos os livros que existam em bibliotecas privadas. O objectivo é a catalogação de 42 000 em dois anos.
A Communicare em parceria com ACEP está a candidatar-se ao IPAD (Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento) com um projecto que visa a elaboração de manuais escolares para o 5/o, 6/o e 7/o anos de escolaridade. A ideia prende-se com o facto de existir uma lacuna no ensino do português, uma vez que não existe a Língua Portuguesa nos referidos anos. A Communicare vai-se associar com as várias instituições que promovem o português, criando equipas que irão proceder à recolha de histórias tradicionais e músicas nas escolas mais carenciadas das aldeias porque são nesses sítios que se encontram enraizadas as tradições. E assim, ensinar a língua portuguesa através da própria cultura goesa. Em princípio este projecto vai arrancar no próximo ano.
No entanto, ao longo destes quatro anos de existência temos realizado várias actividades e workshops. Recentemente, realizamos um workshop de animação para crianças., participaram cerca de 10 crianças, na qual os petizes realizaram filmes de animação com 15 a 20 segundos de duração, a voz off das animações foi feita em várias línguas, nomeadamente em hindi, inglês e português.
Realizámos também um workshop para adolescentes entre os 13 e os 15 anos, uma curta de 3 minutos, onde eles escreveram o guião, participaram na produção e realização. No final, fizemos uma mostra no Onix, a sala de cinema de Pangim, com a presença do Ministro da Cultura, actual Ministro – Chefe.
Todos os anos realizamos uma competição de scrabble em português, onde os participantes utilizam o dicionário e jogam aos pares. A ideia não é só o jogo e o divertimento mas também que aprendam novo vocabulário, não só eles mas até os próprios coordenadores.
As aulas de cozinha portuguesa também é uma das apostas da Communicare. Assim como, já fizemos de francesa e peruana. Mas, a portuguesa é, sem dúvida, a que já teve mais edições, tanto para adultos como para crianças. Primeiro introduz-se os vários ingredientes, seguido das acções usando o verbo no infinitivo, como por exemplo, cortar, mexer, etc.
É uma forma de os adultos e as crianças aprenderem português de uma maneira divertida.

MN
(c) PNN Portuguese News Network

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Comentários
 
Joseph  2009-11-30 14:43:35
Just waitin for your planns in Goa..

 
Maria de Deus Beites Manso  2009-11-13 23:36:05
Aproveito a oportunidade para felicitar a inciativa. Pois, será uma maneira de dar a conhecer a história e o legado português em Goa.

 
Pascoal Sant'Ana Ribeiro Ferrao Gomes  2009-11-10 09:47:47
Fiquei muito interessado em saber promenores da vossa Instituicao. Sou goes, natural de Mocambique, vivi em Portugal agora estou em Macau ( China ).
Penso como a Nalini. Tenhop 55 anos de idade e estou reformado. Tencionava saber como poderia eventualmente ir viver para Goa. Tenho familia em Pangim.
Estou interessado em aprender as linguas de goa e da india. Podera ser pela net?
Fico a espera de resposta
cumprimentos
Pascoal


 
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